5 Carros que Marcaram a Fórmula 1 (e a Engenharia por Trás Deles)

A Fórmula 1 é lembrada pelos pilotos, mas é decidida pelos engenheiros. De tempos em tempos aparece um carro que não apenas ganha, ele muda o que todo mundo entende por “rápido”, obriga os rivais a jogar fora meses de projeto e, com frequência, faz a federação reescrever o regulamento no ano seguinte.

Carros que marcaram a história da Fórmula 1

Estes são cinco desses carros, e, mais importante, o que exatamente cada um inventou.

1. Lotus 72 (1970): o carro que inventou o formato moderno

Projetado por Colin Chapman e Maurice Philippe, o Lotus 72 abandonou o formato de charuto que dominava a categoria e adotou o perfil de cunha, com nariz fino e corpo que alargava para trás. Não era estilo: era aerodinâmica.

As três ideias que fizeram a diferença:

  • Radiadores laterais. Tirar o radiador do nariz liberou a dianteira inteira para gerar downforce. Praticamente todo carro de F1 desde então segue esse princípio.
  • Freios inboard. Com os discos montados junto à caixa de câmbio, em vez de dentro das rodas, caiu drasticamente o peso não suspenso, o que melhora a capacidade da suspensão de manter o pneu colado ao asfalto.
  • Geometria anti-mergulho e anti-agachamento. Mantinha o carro mais estável sob frenagem e aceleração, preservando a altura aerodinâmica.

Foram 20 vitórias em Grandes Prêmios e uma longevidade rara: o 72 correu de 1970 a 1975. Deu a Jochen Rindt o único título mundial póstumo da história e, em 1972, levou Emerson Fittipaldi ao campeonato, na época, o mais jovem campeão da F1.

2. McLaren MP4/4 (1988): o mais dominante de todos

Concebido pela equipe de Steve Nichols sob a direção técnica de Gordon Murray, o MP4/4 nasceu para explorar um regulamento em vias de acabar. Era o último ano dos motores turbo, e a FIA havia apertado o cerco: tanque limitado a 150 litros e pressão de turbo restrita a 2,5 bar.

Com o V6 turbo da Honda, extremamente eficiente no consumo, e um chassi de altura excepcionalmente baixa (o piloto ia praticamente deitado), a McLaren venceu 15 das 16 corridas de 1988. Um índice de 93,8% que continua sendo recorde.

A única derrota veio em Monza, quando Ayrton Senna, liderando, colidiu com um retardatário a duas voltas do fim. Senna conquistou ali seu primeiro título mundial, superando o companheiro Alain Prost em uma das rivalidades mais intensas que o esporte já viu.

3. Ferrari F2004: o auge da era V10

Projeto de Rory Byrne com direção técnica de Ross Brawn, a F2004 foi o ponto culminante da parceria que reconstruiu a Ferrari. Não trouxe uma invenção revolucionária isolada, trouxe algo mais difícil: excelência simultânea em todos os departamentos.

Motor V10 3.0 no limite do que aquela arquitetura permitia, aerodinâmica refinada corrida a corrida, pneus Bridgestone desenvolvidos sob medida para o carro e uma confiabilidade que simplesmente não falhava. Resultado: 15 vitórias em 18 corridas e o sétimo e último título de Michael Schumacher.

O dado que melhor traduz o quanto ela era rápida: a volta mais veloz de Rubens Barrichello em Monza, em 2004, permaneceu como recorde de velocidade média em uma volta de F1 por mais de quinze anos, atravessando gerações inteiras de regulamento.

4. Red Bull RB9 (2013): a obra-prima do escapamento soprado

Adrian Newey encerrou a era dos V8 aspirados com um carro que explorava, melhor que qualquer rival, um truque da época: direcionar os gases de escape para o difusor. Esse fluxo extra selava a região sob o carro e gerava downforce mesmo com o piloto fora do acelerador.

Fazer isso funcionar exigia mapeamento de motor sofisticado e um piloto capaz de dirigir com o pé de forma pouco natural para manter o fluxo. Sebastian Vettel dominou essa técnica como ninguém.

O saldo de 2013: 13 vitórias, incluindo nove seguidas na reta final do campeonato, e o quarto título consecutivo de Vettel. No ano seguinte a F1 mudaria para os motores híbridos turbo, e a Red Bull perderia a vantagem de uma temporada para a outra, prova de como o domínio na categoria é sempre provisório.

5. Mercedes W11 (2020): o topo da era híbrida

A W11 é considerada o carro mais completo da era das unidades de potência híbridas: V6 1.6 turbo combinado a sistemas de recuperação de energia cinética e térmica, com eficiência que nenhum concorrente alcançou.

Sua marca registrada foi o DAS, Dual Axis Steering. O piloto podia puxar e empurrar o volante no eixo longitudinal, alterando a convergência das rodas dianteiras em movimento. Rodas mais paralelas nas retas reduziam arrasto e ajudavam a aquecer os pneus; a convergência normal voltava para as curvas. Um truque tão engenhoso que foi proibido já na temporada seguinte.

Com ela, Lewis Hamilton venceu 11 corridas e igualou o recorde de sete títulos mundiais de Schumacher, enquanto a Mercedes vencia 13 das 17 provas do calendário reduzido de 2020.

Menções honrosas

  • Lotus 79 (1978). O primeiro carro a explorar plenamente o efeito solo, com túneis venturi sob a lataria. Grudava na pista de um jeito que ninguém tinha visto.
  • Brabham BT46B (1978). O lendário “carro-ventilador”, que sugava o ar por baixo do assoalho. Venceu na estreia e foi aposentado sob pressão imediata dos rivais.
  • Tyrrell P34 (1976). O de seis rodas, com quatro pneus menores na dianteira para reduzir arrasto. Venceu um GP e virou um dos carros mais icônicos já construídos.
  • Williams FW14B (1992). Suspensão ativa, controle de tração e câmbio semiautomático. Tanta eletrônica que a categoria acabou banindo boa parte dela.

O que esses carros têm em comum

Três padrões se repetem em todos eles:

  1. Leram o regulamento melhor que os outros. Nenhum quebrou regra alguma, todos encontraram, dentro do texto, uma brecha que os rivais não tinham enxergado.
  2. Tinham o piloto certo. Carro dominante nas mãos erradas vira potencial desperdiçado. Fittipaldi, Senna, Schumacher, Vettel e Hamilton extraíram tudo.
  3. A vantagem durou pouco. Na Fórmula 1, toda supremacia tem prazo, porque o regulamento sempre muda depois.

Perguntas frequentes

Qual o carro mais dominante da história da F1?

Em percentual de vitórias, o McLaren MP4/4 de 1988: 15 triunfos em 16 corridas, ou 93,8% de aproveitamento. Nenhum outro chegou perto desse índice em uma temporada completa.

Por que os carros de F1 antigos batiam recordes que os atuais demoraram a superar?

Porque o regulamento não caminha só na direção da velocidade. Restrições de motor, combustível, pneus e aerodinâmica criadas por razões de segurança e custo às vezes deixam os carros mais lentos que os de dez anos antes, como aconteceu depois da era V10.

O que foi o efeito solo na Fórmula 1?

É o uso do assoalho do carro para acelerar o ar por baixo dele, criando uma zona de baixa pressão que suga o carro contra a pista. Rende downforce sem o arrasto das asas. Foi explorado nos anos 70, restringido depois e retomado no regulamento moderno.

Quantos brasileiros são campeões mundiais de F1?

Três, somando oito títulos: Emerson Fittipaldi (1972 e 1974), Nelson Piquet (1981, 1983 e 1987) e Ayrton Senna (1988, 1990 e 1991).


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João Moura
João Moura

João Moura é o editor do Golzinho.com. Já teve oficina e já passou por muito carro. Hoje anda de Gol quadrado, o mesmo tipo de carro que ensinou meia geração a meter a mão no motor e que continua sendo a melhor bancada de teste que existe: peça barata, mecânica na cara e nenhum computador no meio do caminho. Escreve aqui sobre o que faz o dono de carro perder dinheiro: manutenção que se adia até virar prejuízo, conta de financiamento que ninguém explica direito, lei que muda e pega todo mundo desprevenido e preparação feita na ordem errada. Número que entra no texto vem de fonte oficial: ANP, Fenabrave, Inmetro, CONTRAN, Detran e manual de montadora. Viu algo errado ou desatualizado? Fala pela página de contato.

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