
Toda multa chega do mesmo jeito: um envelope, um susto e a dúvida incômoda de “será que eu fiz isso mesmo?”. Logo depois vem a segunda dúvida, mais cara: pago, recorro ou deixo para depois?
Quase todo mundo responde no impulso. Paga sem conferir se a notificação está correta, perde o prazo de defesa ou acumula pontos sem acompanhar, e só descobre o tamanho do estrago quando a carta de suspensão da CNH aparece na caixa de correio. Multa não melhora guardada na gaveta.
Aqui está o que você precisa saber para decidir com calma: quanto custa cada categoria de multas de trânsito, quantos pontos cada uma soma, como funciona o limite atual de 20, 30 ou 40 pontos, quais infrações suspendem a habilitação direto e o passo a passo real para recorrer, incluindo os erros de preenchimento que derrubam uma autuação.
Resumo rápido
- São quatro categorias: leve (3 pontos), média (4), grave (5) e gravíssima (7), com valores fixados no Código de Trânsito Brasileiro.
- O limite para suspensão mudou: hoje são 20, 30 ou 40 pontos em 12 meses, dependendo de quantas infrações gravíssimas você tem no período.
- Algumas infrações suspendem a CNH direto, sem depender de pontuação: álcool, racha e excesso de velocidade acima de 50% são as principais.
- Existem dois descontos: 20% pagando até o vencimento e até 40% aderindo à notificação eletrônica, mas o de 40% exige abrir mão da defesa.
- Recorrer é gratuito e tem três instâncias: defesa prévia, JARI e CETRAN.
- Multa em aberto trava o licenciamento e, sem licenciamento em dia, o carro pode ser removido numa abordagem.
Índice
- Categorias, valores e pontos
- As multas que custam muito mais
- Pontos na CNH: 20, 30 ou 40?
- Infrações que suspendem a CNH na hora
- Como consultar multas em 2026
- Descontos de 20% e 40%
- Como recorrer: as três instâncias
- O que realmente derruba uma multa
- Indicação de condutor: quem leva os pontos
- Perguntas frequentes
- O que eu faria
Categorias, valores e pontos
O Código de Trânsito Brasileiro divide as infrações em quatro naturezas. Cada uma tem valor fixo e pontuação própria, e é a natureza, não o valor, que define o risco real para a sua habilitação.
| Natureza | Valor | Pontos | Exemplos comuns |
|---|---|---|---|
| Leve | R$ 88,38 | 3 | Estacionar em local proibido de baixa gravidade, buzinar fora das regras |
| Média | R$ 130,16 | 4 | Velocidade até 20% acima da máxima, estacionar sobre a calçada |
| Grave | R$ 195,23 | 5 | Não usar cinto, velocidade de 20% a 50% acima, parar sobre a faixa de pedestres |
| Gravíssima | R$ 293,47 | 7 | Celular ao volante, avançar o sinal vermelho, CNH vencida há mais de 30 dias |
Repare no salto entre a média e a gravíssima: o valor pouco mais que dobra (de R$ 130,16 para R$ 293,47), mas o peso na CNH vai de 4 para 7 pontos e, mais importante, muda o seu limite de suspensão. Duas gravíssimas em 12 meses mudam o jogo inteiro, como você vai ver no cálculo de pontos.
As multas que custam muito mais
Algumas gravíssimas têm um fator multiplicador sobre o valor base. É aqui que a multa deixa de ser chateação e vira rombo no orçamento:
- Dirigir sob influência de álcool: gravíssima com fator 10, R$ 2.934,70, mais suspensão do direito de dirigir por 12 meses. Recusar o teste do bafômetro tem exatamente a mesma penalidade.
- Reincidência em 12 meses na infração de álcool: a multa é aplicada em dobro e passa de R$ 5.800.
- Participar de racha: gravíssima com fator 10, mais suspensão e possibilidade de apreensão do veículo.
- Velocidade acima de 50% da máxima permitida: gravíssima com fator 3, R$ 880,41, com suspensão direta.
- Dirigir sem nunca ter sido habilitado: gravíssima com fator 3, mais retenção do veículo. Se o seu caso é esse, veja como tirar a CNH e quanto custa hoje.
Faça a conta do álcool: R$ 2.934,70 é, sozinho, vários meses do custo total de manter um carro popular, e ainda vem com um ano a pé. Se quiser dimensionar essa comparação, veja o guia de quanto custa ter um carro por mês.
Sobre radar, uma informação que evita muita autuação boba: existe margem de tolerância antes da multa. Em vias com limite até 100 km/h, a tolerância é de 7 km/h; acima disso, passa a ser de 7% sobre o limite. Numa via de 60 km/h, a autuação começa a partir de 67 km/h medidos. Numa de 110 km/h, a partir de 117,7 km/h. Não é licença para andar no limite da tolerância, é só para você saber ler a notificação.
Pontos na CNH: 20, 30 ou 40?
Esta é a mudança que muita gente ainda não absorveu: o limite único de 20 pontos acabou em 2021. Hoje o teto depende da gravidade do que você cometeu nos últimos 12 meses:
- 20 pontos, se houver duas ou mais infrações gravíssimas no período;
- 30 pontos, se houver uma única infração gravíssima;
- 40 pontos, se não houver nenhuma gravíssima no período.
Traduzindo: quem leva multas leves e médias tem mais folga; quem coleciona gravíssimas perde a habilitação com bem menos pontos. O sistema pune o comportamento, não só o volume. Um exemplo: duas gravíssimas (14 pontos) mais uma média (4) e uma grave (5) dão 23 pontos, e com duas gravíssimas o seu limite é 20. CNH suspensa com menos da metade dos 40 que muita gente acha que tem.
Dois detalhes que mudam o resultado da sua conta:
- Motoristas com EAR (exercício de atividade remunerada, como aplicativo, táxi, van escolar ou caminhão) seguem o limite de 40 pontos, independentemente da natureza das infrações. Em compensação, dependem da CNH para trabalhar, então o risco prático é maior.
- Os pontos caem sozinhos. Cada infração deixa de contar 12 meses depois da data em que foi cometida. Não é por ano civil, é uma janela móvel, então confira a data exata de cada autuação antes de entrar em pânico.
Outro ponto que confunde: pagar a multa não gera os pontos, e deixar de pagar não evita. A pontuação é lançada quando a penalidade se torna definitiva, pague você ou não. Pagar só resolve a dívida.
Infrações que suspendem a CNH na hora
Existe um grupo de infrações em que a suspensão do direito de dirigir é a própria penalidade, aplicada mesmo com a sua CNH zerada de pontos. As principais:
- Dirigir sob influência de álcool ou de qualquer substância psicoativa;
- Recusar-se a fazer o teste do etilômetro ou exame clínico;
- Trafegar em velocidade superior à máxima permitida em mais de 50%;
- Participar de competição, exibição ou manobra perigosa em via pública;
- Disputar corrida ou promover derrapagem, o clássico “cavalo de pau” na rua;
- Deixar de prestar socorro a vítima de acidente.
Nesses casos, o processo administrativo de suspensão corre em paralelo à multa. Pela regra geral do CTB, a suspensão por infração específica vai de 2 a 8 meses (no álcool e na recusa ao bafômetro, 12 meses), e o curso de reciclagem é obrigatório para reaver o documento. Manobra que rende aplauso em vídeo custa caro na vida real: cavalo de pau na rua é multa, suspensão e, dependendo do caso, carro recolhido.
Como consultar multas em 2026
Não dependa do envelope: notificação extraviada não suspende prazo. Minha regra é consultar a cada dois ou três meses, mesmo sem motivo. Onde olhar:
- App Carteira Digital de Trânsito (CDT): concentra multas, pontuação e CRLV digital, é o aplicativo que todo motorista deveria ter instalado, e é por ele que se faz a adesão à notificação eletrônica;
- Portal gov.br: acesso à situação da CNH e ao histórico de infrações;
- Detran do seu estado: infrações estaduais e municipais registradas no veículo;
- Site do órgão autuador: prefeitura, no caso de multas municipais, e a autoridade federal, no caso de rodovias federais.
Um ponto que costuma passar batido: a multa fica ligada ao veículo, e o veículo fica ligado ao licenciamento. Débitos em aberto travam o licenciamento anual, junto com IPVA atrasado, e circular sem ele é infração gravíssima com remoção do carro. Mantenha a documentação em dia: CRLV do ano, licenciamento quitado e CNH válida.
Descontos de 20% e 40%
Se a multa é legítima e você não pretende recorrer, existem dois abatimentos previstos em lei, e eles não se somam:
- 20% de desconto: vale para o pagamento feito até a data de vencimento indicada na Notificação de Penalidade. É automático, sem exigir nada de você.
- Até 40% de desconto: disponível para quem adere ao sistema de notificação eletrônica (via CDT) e paga já na fase de autuação, reconhecendo a infração. O preço desse desconto é a renúncia ao direito de defesa e recurso.
A decisão é simples de enquadrar. Se a autuação tem qualquer chance real de cair, o desconto de 40% é o pior negócio possível, porque fecha a porta antes de você tentar. Se a multa é indiscutível, é dinheiro na mesa: numa gravíssima de R$ 293,47, são cerca de R$ 117 a menos.
Como recorrer: as três instâncias
Recorrer não custa nada além do seu tempo, e cada etapa tem prazo próprio. Pular uma fase não impede a seguinte, mas enfraquece o conjunto. O caminho é este:
- Defesa prévia (defesa da autuação). Chega primeiro, junto da Notificação de Autuação. O prazo é o indicado no documento, nunca inferior a 30 dias. É aqui que se aponta erro material, ausência de sinalização ou identificação errada do veículo.
- Recurso à JARI. Se a defesa for indeferida, você recebe a Notificação de Penalidade e tem 30 dias para recorrer à Junta Administrativa de Recursos de Infrações, órgão colegiado ligado ao autuador.
- Recurso ao CETRAN. Última instância administrativa, também com 30 dias. Não é exigido depósito prévio nem pagamento da multa para recorrer.
Para montar o pedido, junte: cópia da notificação, documento do veículo, CNH e as provas do que você alega (fotos da via, imagens da sinalização, registros de rastreador, comprovantes de que estava em outro lugar, laudos). Escreva de forma objetiva, indicando o número do auto de infração e o fundamento legal. Modelo genérico da internet funciona mal justamente porque não descreve o seu caso, e o julgador da JARI já leu aquele texto centenas de vezes.
Uma dica de organização: guarde tudo numa pasta digital com data. Esse histórico ajuda até na hora de vender, como mostro no guia sobre como vender seu carro sem cair em golpe.
O que realmente derruba uma multa
Recurso não se ganha com indignação, se ganha com vício comprovado. Estes são os argumentos que costumam ter efeito:
- Notificação fora do prazo legal. A notificação de autuação precisa ser expedida em até 30 dias da infração, como prevê o CTB; passado esse prazo sem notificação válida, o auto deve ser arquivado.
- Erro nos dados do auto: placa divergente, modelo ou cor que não correspondem ao veículo, local descrito de forma imprecisa.
- Ausência ou irregularidade de sinalização no ponto da autuação. Foto datada ajuda muito.
- Radar sem aferição válida pelo órgão metrológico competente (o Inmetro e a rede credenciada), ou fora do prazo de verificação.
- Dupla autuação pela mesma conduta, no mesmo momento.
- Falta de enquadramento correto entre o artigo citado e o fato descrito.
O que quase nunca funciona: alegar que não viu a placa, dizer que “todo mundo faz”, pedir cancelamento por dificuldade financeira ou reclamar do valor. São argumentos humanos, mas não são jurídicos.
Onde te enrolam
- Empresa que “garante” cancelar a multa. Ninguém garante resultado de recurso. Quem promete isso está vendendo o mesmo modelo genérico que você baixaria de graça.
- Cobrar pelo que é gratuito. Defesa, JARI e CETRAN não têm taxa. Pagar alguém para redigir pode até valer em caso complexo, mas saiba que o protocolo em si não custa nada.
- “Recorre que atrasa os pontos”. Recorrer sem argumento só empurra o problema: quando a penalidade fica definitiva, os pontos entram do mesmo jeito.
- Assumir pontos de outra pessoa por favor ou por dinheiro. Indicar como condutor quem não estava dirigindo é declaração falsa, e quem “vende” pontos está te vendendo um problema maior que a multa.
Indicação de condutor: quem leva os pontos
Se outra pessoa dirigia o carro, o proprietário pode, e deve, indicar o condutor infrator dentro do prazo informado na Notificação de Autuação, normalmente 30 dias. A indicação transfere a pontuação para quem de fato cometeu a infração e exige a assinatura do indicado.
Não indicar tem consequências diferentes conforme o dono:
- Pessoa física: os pontos ficam com o proprietário do veículo, mesmo que ele não estivesse ao volante;
- Pessoa jurídica: além da multa original, a empresa recebe uma penalidade adicional por não identificar o condutor, com valor bem superior.
A mesma lógica vale na hora de vender: sem a comunicação de venda registrada, multas do comprador continuam chegando no seu nome. E, se o carro tiver seguro, atualize também o cadastro do condutor principal, assunto que detalho no guia de seguro de carro.
Perguntas frequentes
Quantos pontos suspendem a CNH em 2026?
Depende do seu histórico nos últimos 12 meses: 20 pontos com duas ou mais infrações gravíssimas, 30 pontos com uma gravíssima e 40 pontos sem nenhuma gravíssima. Motoristas com atividade remunerada (EAR) seguem o limite de 40 pontos.
Pagar a multa evita os pontos na CNH?
Não. O pagamento quita o valor devido, mas a pontuação é lançada quando a penalidade se torna definitiva. Só o recurso deferido evita os pontos.
Vale a pena aceitar o desconto de 40%?
Só se a multa for indiscutível. Esse desconto exige reconhecer a infração e abrir mão da defesa e do recurso, então ele fecha qualquer possibilidade de cancelamento.
Quanto tempo os pontos ficam na carteira?
Doze meses contados da data da infração. É uma janela móvel: à medida que as autuações antigas completam um ano, elas deixam de contar no seu total.
Multa impede o licenciamento do carro?
Sim. Débitos em aberto travam o licenciamento anual, e circular com o licenciamento vencido é infração gravíssima, com remoção do veículo.
Preciso de advogado para recorrer de uma multa?
Não. O recurso administrativo é gratuito e pode ser apresentado pelo próprio motorista em todas as instâncias. O que decide o resultado é a qualidade das provas, não quem assina o pedido.
Some as infrações dos últimos 12 meses e veja qual limite se aplica ao seu caso, 20, 30 ou 40 pontos, e quanto ainda falta para a suspensão.
O que eu faria
- Ativaria a notificação eletrônica na CDT hoje. Prazo perdido por carta extraviada é o erro mais burro e mais comum.
- Ao receber uma autuação, conferiria placa, modelo, cor, local e data antes de qualquer outra coisa. Achou erro, defesa prévia.
- Multa justa e sem erro: pagaria com o maior desconto disponível e seguiria a vida.
- Com uma gravíssima nos últimos 12 meses, dirigiria sabendo que o meu limite caiu para 30 pontos.
Conclusão
Lidar bem com multas de trânsito é menos sorte e mais método: conferir a notificação com atenção, saber em qual categoria a infração se encaixa, acompanhar a pontuação a cada poucos meses e agir dentro do prazo, pagando com desconto quando a multa é justa e recorrendo com provas quando não é.
O erro mais caro não é a multa. É deixar o prazo vencer, perder o direito de defesa e só perceber o tamanho do problema quando a suspensão chega. Um lembrete trimestral no celular para consultar as infrações resolve boa parte disso.
Já conseguiu derrubar alguma multa no recurso? Conta nos comentários qual argumento funcionou, porque isso ajuda mais gente do que qualquer modelo pronto. Dúvida específica do seu caso? Manda pela página de contato.